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Exposição Anterior

01/07/2017 - 30/09/2017

Colaboração ANA CRISTINA CACHOLA

Igor Jesus e Mariana Silva

A colaboração na e pela criação artística tem uma genealogia ampla que se inscreveu de diversas formas na historiografia da arte e da produção crítica. Esta genealogia acolhe predisposições colaborativas distintas que se reconhecem de forma mais óbvia na organização dos movimentosmanifestos modernistas, na vontade site-specific e nas premissas da arte relacional. Hoje cada vez mais se trata de pensar a colaboração enquanto prática imanente – e também especulativa – que transforma a organização vertical imposta ao planeta numa horizontalidade não linear que, apesar de não ser inócua, tenta retirar a discursividade às narrativas do e sobre o mundo. Não há não colaboração. Esta afirmação pela negativa torna-se ainda mais evidente pela complexidade e diversidade de práticas colaborativas que atravessam a existência humana e não-humana. Dos formatos pré-cognitivos, orientados por afectos e afecções, aos que se ancoram numa intenção colaborativa premediada, a colaboração assume fisionomias distintas e contextuais sempre de um modo relacional ética e esteticamente informado, como nas obras de Igor Jesus (1989) e Mariana Silva (1983).

Tanto Igor Jesus como Mariana Silva acompanham e constituem a viragem colaborativa, mostrando a colaboração entre humanos e não humanos, textos, imagens e disciplinas. Apesar da sua génese distinta, as obras destes artistas permitem pensar a cultura visual contemporânea à luz do impacto da (inter)mediação tecnológica, da complexidade fenomenológica e cultural de um olhar que é sempre partilha e da criação artística como colaboração ecológica de saberes. Igor Jesus e Mariana Silva apresentam trabalhos que não implicam uma colaboração entre os dois artistas, mas que expõem a colaboração como como presença ubíqua na arte contemporânea. Igor Jesus apresenta uma obra que convoca a colaboração como vontade corpórea: a intervenção manual nas folhas de sala que o artista concebeu para toda a exposição. Deste modo, Igor Jesus desenha manualmente em todas as folhas de sala. Não se trata, contudo, de fazer substituir a mão à máquina ou de uma discussão da tríade manualanalógico-digital, mas de pensar a colaboração como causa e consequência de um campo artístico sistémico que exige uma intencionalidade inclusiva e presciente do envolvimento de outros na existência da obra de arte. Por isso, só no contacto com o espectador estará completa, uma vez que os materiais utilizados na sua concepção tornam essa inscrição-relação visível. Desta folha de sala fazem igualmente parte as notas de investigação para uma exposição de Igor Jesus, revelando a ontologia dialógica da criação artística contemporânea. Em Do ponto de vista do mamífero (2017), Mariana Silva questiona a relação da individualidade humana e não humana com um comportamento em grupo que revela e (também) constrói modelos de (inter)relação sociais. Os diferentes momentos de uma cronologia científica de largo espectro – em que se incluem disciplinas como a biologia, a etologia, a sociologia, a psicologia, mas também a programação e a robótica – são apresentados na sua tensão utópico-distópica que obriga a alterações do paradigma analítico e visual da existência. Se durante séculos, os seres vivos eram identificados, observados, preservados como entidades estáticas, genéricas ou amostras-tipo, o posicionamento da ciência alterou-se, mostrando, nas últimas décadas, um olhar reincidente sobre o movimento, o grupo e a relação-colaboração, assim como a sua ausência. A tendência de antropomorfização do comportamento não humano, o olhar como tentativa de controlo e libertação, o grupo como unidade comportamental, colaboram na reflexão planetariamente orientada de Mariana Silva. A obra de arte é porque é colaboração.

(curadoria de Ana Cristina Cachola)

 

Ana Cristina Cachola
Ana Cristina Cachola é doutorada em Estudos Culturais e mestre em Comunicação e Gestão Cultural pela Universidade Católica Portuguesa, instituição onde é hoje professora convidada, lecionando diversas disciplinas no campo das artes. Foi bolseira da Fundação de Ciência e Tecnologia durante o período que dedicou à pesquisa para o seu doutoramento Representações da Identidade Cultural Portuguesa na Arte Contemporânea. É coeditora do jornal Diffractions – Graduate Journal for the Study of Culture e investigadora associada no Centro de Estudos de Comunicação e Cultura (CECC) da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa. Trabalha como curadora independente desde 2008 e escreve sobre arte contemporânea para diversas publicações.

Mariana Silva
Mariana Silva (1983, Lisbon) graduated from the Faculty of Fine Arts, University of Lisbon. Relevant solo shows include, among others: Audience Response Systems (2014, Parkour, Lisbon); Environments 2013 (e-flux, New York), with Pedro Neves Marques; The Organization go Forms 2011 (Kunsthalle Lissabon, Lisbon); Relevant group shows include, among others: Gwangju Biennial, 2016 (Gwangju, Korea); HYPERCONNECTED, 2016 (V Moscow International Biennial for Young Art at MMOMA – Moscow Modern Art Museum); EDP New Artists Prize, 2015 (EDP Foundation, Lisbon) Europe, Europe, 2014 (Astrup Fearnley Museum, Oslo); Indie Film Festival: Moving Image, 2012 (Cinemateca de Lisboa, Lisbon). Silva is the recipient of the EDP New Artist Prize 2015 (Lisbon, Portugal) and the BES revelation prize 2008 (Porto, Portugal). She was artist in residence at the Gasworks, London (2016) and the ISCP, New York (2009).
In late 2017 Mariana Silva will open a solo show at the Gulbenkian Foundation in Lisbon.

Igor Jesus
Igor Jesus (1989) lives and works between Lisbon and Berlin, where he is an artist in residence at Kunstlerhaus Bethanien until December 2017, with a grant from the Calouste Gulbenkian Foundation. He is one of the nominees for the EDP Foundation’s New Artists Award 2017. He holds a BA Degree in Sculpture from the School of Fine Arts, University of Lisbon. In 2013, he was funded by the ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual) to direct a short film. Among his most recent solo exhibitions stand out Amar-te os Ossos (2017), Galeria Filomena Soares, Lisbon; Chessari (2016), Galeria Solar, Vila do Conde; A última carta ao Pai Natal (2015), Galeria Filomena Soares; and Debaixo do Sol (2015), Appleton Square, both in Lisbon. In 2014, he presented the exhibition Old School #32, Lisbon, and in 2013 Peso Morto, Espaço Zero, Tomar.
Among his group shows stand out HangarOut – EntreLinhas, Palácio Marquês de Abrantes (2017); in 2016, Topologias del Aura, Galeria Bacelos, Madrid, Abaixo as fronteiras! Vivam o design e as artes, Diálogo entre o design e obras da coleção António Cachola, Elvas Contemporary Art Museum and Pátio da Galé in Lisbon, Ponto de Partida – uma seleção de obras da coleção de arte contemporânea Figueiredo Ribeiro”, Quartel, Abrantes; and, in 2015, The Iynx knows no boundaries, Fondation d’Entrepise Ricard, Paris.

Mais informações: leia o folheto Collaboration I, II, III, VI.